20 de set de 2014

Cacá Diegues e o ego do artista

É sempre uma pena ver um artista que você admira meter o pé na boca. É o caso de Cacá Diegues que está sendo confrontado por sua infeliz ideia de usar animais de circo em um filme chamado O Grande Circo Místico, ainda em fase de pré-produção.

O filme se passa no começo do século XX em torno de um circo que explora animais, o que em si não é problema. Mas Diegues usará animais de verdade, ou seja, reproduzirá a exploração animal na tela em nome de um projeto que ainda por cima no Brasil seria inviável, já que a lei proíbe. Para evitar a lei, a produção rodará as cenas circenses em Portugal.

Uma petição foi organizada pedindo que Diegues respeite os animais e use efeitos especiais, o que é perfeitamente possível hoje em dia com CGI, ou seja, imagens geradas por computador, como é o caso do Planeta dos Macacos. O fato do uso dos animais de circo ser proibido no Brasil deveria ter sido suficiente para alertar o diretor para o lodaçal ético no qual ele está se metendo.

Diegues respondeu a petição educadamente mas sua resposta foi um tanto quanto rasa, considerando sua bagagem artística. Ele disse: 

“É mais ou menos como se estivéssemos fazendo um filme sobre o nazismo e a crueldade dos campos de concentração na primeira metade do século XX: não poderíamos deixar de mostrar as vítimas daquela brutalidade, privadas de liberdade, mal tratadas e humilhadas por seus algozes.”

Esse texto não faz o menor sentido. Quer dizer que para representar o passado você precisa reproduzi-lo literalmente? Precisamos fazer uma viagem no tempo para estudar história? Atores humanos podem representar situações de crueldade contra humanos porque eles o fazem voluntariamente e são pagos para isso. Quanto aos animais, a única forma de fazer isso é forçando-os ao trabalho com treinamentos pesados e cruéis. Uma rápida pesquisa no Google revela para quem quiser saber o que acontece com os animais em circo.

Infelizmente esse tipo de atitude é comum no meio artístico que, assim como religiosos usam a liberdade de culto para defender ações que afetam negativamente outros, apelam para uma definição distorcida de licença artística. O artista precisa reconhecer quando um projeto não é viável.

Muita gente deve lembrar quando Nuno Ramos colocou um urubu na Bienal de São Paulo. Alguns anos antes ele havia colocada um burro carregando uma caixa de som dentro de uma galeria de arte, uma verdadeira tortura.

A matéria prima da arte é a imaginação. O artista não tem a liberdade de fazer o que quer se isso incluir a violação de direitos de outros. Usar leis defasadas e escapar para outros territórios para escapar dos enquadramentos éticos de sua própria cultura é o equivalente artístico-moral de transferir dinheiro para um paraíso fiscal para não pagar impostos.
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