1 de mai de 2013

No dia do trabalho, lembre-se dos animais de tração


Para que essa aberração e anacronismo chegue ao fim o quanto antes ...

"Que se lembrasse, desde quando era pouco mais que um potro, sua vida consistia em puxar carroças com cargas pesadas todo santo dia. Não tinha folga nem nos feriados e nem nos finais de semana.

Não tivera sorte com o dono, pessoa grosseira e insensível que não sabia ser amável com as pessoas, muito menos com animais, e apenas se preocupava em transportar o maior número de cargas por dia para amealhar mais dinheiro.
Jamais recebera um afago sequer, uma palavra de carinho que fosse. Mas sempre obedecia humildemente e fazia tudo direitinho para não desagradar o dono.

Quantas e quantas vezes o carroceiro esquecia-se de lhe dar água e o deixava salivando de sede sob o sol escaldante, a garganta seca pela poeira da estrada.

Em certas noites, o homem deixava-o com os arreios, por pura preguiça mesmo, atando-o numa árvore longe do pasto.
Incontáveis vezes foi açoitado só porque o dono estava nervoso com alguma coisa e tinha que descontar em alguém, e sempre era ele o saco de pancadas.

Enquanto jovem, conseguia suportar as cargas e trotava velozmente, mesmo nas subidas íngremes para não ser chicoteado. Mas agora que estava velho e as forças lhe fugiam, não conseguia puxar, como antigamente, as pesadas cargas morro acima.

Naquele dia seu velho corpo fraquejou e os joelhos dobraram-se. O dono, fora de si, urrava: “Vamos preguiçoso! Isso é hora de descansar?” e começou a espancá-lo sem dó e nem piedade.

O chicote zunia no ar e descia estalando no lombo. E mais e mais chicotadas lanhavam o dorso já gasto e com falhas de pelos. Não conseguia se levantar, as pernas fraquejavam e dobravam novamente. A visão turvou, e, exausto, deitou no chão o corpo franzino e judiado. O carroceiro vendo aquilo, começou a chutar-lhe o rosto e jogou um balde de água fria em sua face.

Mas já não estava mais ali, seu espírito abandonara a velha carcaça. Agora sentia-se leve, revigorado.
Conseguia trotar garbosamente e pastava numa campina muito verde onde havia uma cachoeira de águas límpidas e frescas. Podia correr livremente, sem arreios, sem freios, sem carroças, sem cargas para puxar. E sem chicotes!
Via outros animais livres e vigorosos como ele, trotando e saltitando felizes pelos campos.
Era o paraíso almejado, o céu dos animais!

Teria agora o merecido descanso por toda a eternidade..."

(Ivana Maria França de Negri)

Para homenagear esses escravos do mundo contemporâneo, eu compartilho a cena final de um dos meus filmes favoritos. Trata-se de Au hasard Balthazar (1966), de Robert Bresson, um filme onde o protagonista é um burrinho explorado impiedosamente pelo ser humano. Na cena final, rica em simbolismos cristãos, Balthazar morre e é “levado” ao céu pelas ovelhas.

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