29 de mar de 2013

Debate: animais abandonados e eutanásia

Um dos debates recentes na imprensa animalista foi sobre o fato de que a PETA faz eutanásia em boa parte dos animais domésticos que recolhe.

Em primeira estância, as pessoas podem ficar chocadas que uma organização que promove direitos animais e veganismo posso fazer eutanásia, mas esse seria um julgamento precipitado.

O grande culpado da morte destes animais não é a PETA, mas aqueles que criam animais por lucro, o governo que não proíbe o comércio e a sociedade que compra. O fato é: não existe lares suficientes para tantos animais que são completamente dependentes do ser humano. Quando eles tem a sorte de serem resgatados e adotados, ótimo.

Mas viver em abrigo para sempre não é vida para ninguém e em muitos casos a morte pode ser preferível.

Isso não quer dizer que devemos voltar para o sistema em que os CCZs eutanasiavam qualquer animal de rua no qual pusessem as mãos. Dar o direito de pena de morte ao estado é sempre errado porque leva inevitavelmente ao abuso.

É uma questão complexa e dolorida, porque sabemos que é um problema cuja solução ética é razoavelmente simples, mas que depende de boa vontade política e uma mudança de paradigma.

Gostaria de compartilhar aqui o que a Dra. Sônia T. Felipe disse em um comentário na ANDA sobre o assunto. Como sempre, ele expõe seu pensamento com muita precisão e clareza.

"Essa ilusão de que alguém pode ficar catando gatos e cães jogados fora por gente que antes os comprou ou adotou num arroubo emocional, sem o propósito de “servir” ao animal até o dia de sua morte, sim, porque ter um animal de outra espécie em sua casa é servi-lo (de serviçal, servo, serviente, subserviente) todos os dias, atender às necessidades do animal todos os dias, gastar dinheiro todos os dias, fazer a higienização do espaço todos os dias, dar atenção ao animal todos os dias, cuidar dele fragilizado na doença todos os dias, cuidar dele fragilizado na velhice, todos os dias… até que a morte os separe, sim, é isso a que leva o desejo ou o ímpeto de ter um animal de outra espécie em sua casa… voltando ao ponto: a ilusão de que se pode ficar catando animais dos outros jogados fora deve finalmente ter fim.

Isso vale para a PETA, poderosa empreendedora tentando atender à demanda não criada por ela, e vale para cada um de nós, tanto quanto para os acumuladores de cães e gatos e as socorristas. Ninguém aguenta o custo financeiro e emocional de manter um animal de outra espécie na prisão que nossas casas representam para eles, quando são os outros quem os compraram ou adotaram e depois se desiludiram e os abandonaram.

Se a PETA milionária não tem como manter tantos animais despejados em seus edifícios, imagina as pessoas pobres e exauridas no cuidado de dezenas de bichos abandonados, sem receber doação de quem quer que seja para isso! A liberdade de adotar deve ser preservada por lei, mas a de abandonar deve ser punida por lei e severamente, algo que a lei atual não prevê."

Notem que a Sônia não está criticando a adoção. Muito pelo contrário. Ela está sublinhando a situação impossível de se acumular animais em casa, no caso dos protetores, por compaixão, e conseguir tocar com a vida.

Eu mesmo já tive essa fase e sei exatamente do que ela fala. Uma vez resgatei um poodle com a perna quebrada e gastei R$1.500,00 com ele. Não dá para fazer isso todo o tempo. Provavelmente farei isso novamente porque existem casos que são tão terríveis que uma pessoa sensível não consegue ficar impassível. Mas é algo absurdo, ficar pagando o preço pela irresponsabilidade alheia e coletiva.

Resumindo: o trabalho dos socorristas tem dado resultado no sentido que fez a questão da adoção popular e a colocou na boca do povo. Mas tão importante quanto socorrer é evitar que o problema aconteça, e isso se dará com educação, legislação e castração.

Eu admiro muito as pessoas que mantém abrigos e apoio uma iniciativa dessas na minha cidade, porque exige uma disponibilidade emocional enorme. Mas lembremos que essas são medidas paliativas e não a soluçao.

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