24 de mai de 2012

Senciência animal

Eu às vezes fico imaginando que tipo de pessoa acha que os animais são seres inferiores que merecem menos consideração. Eu ontem tive um exemplo claro de como os não humanos tem uma noção de moral que pode até bater a de alguns humanos, que não tem nenhuma.

Eu no momento estou tentando resolver um problema em uma pequena favela na região da cidade onde moro. Trata-se de um beco onde vive uma cadela muito inteligente chamada Estrelinha. Estrelinha vive em uma casa onde a dona é viciada em crack e mantém sua residência em um estado lastimável de sujeira e abandono – prova mais uma vez que no Brasil a pior pobreza não é a material e sim a de educação. A casa é de alvenaria, tem água e luz. Se fosse limpa, seria um lugar perfeitamente digno onde se viver. Além da dona da casa, existem dois adolescentes que vivem no lugar. Um menino calado de 12 anos e uma adolescente indiferente de cerca de 16 anos.

Pois bem. Estrelinha dois meses atrás deu cria e foi por isso que entrei na história. Fiquei sabendo do caso e resolvi bancar uma castração para ela. Mas agora existem oito filhotes que precisam ser encaminhados para adoção, o que acontecerá neste sábado quando eu os levarei para uma feira de adoção na esperança de encontrar lares para eles. Eles estão crescendo rapidamente, já tem aquele jeito de bicho acuado e é preciso retirá-los desta situação antes que os vizinhos comecem a ficar hostis contra eles.

Mas o motivo desta postagem é um episódio que aconteceu ontem. Eu levo almoço para Estrelinha todos os dias, além de fornecer ração para ela e seus filhos. E ontem não foi diferente. Mas quando eu cheguei lá, os filhotes estavam todos no beco, brincando (normalmente eles estariam dentro de casa). É incrível como eles desenvolvem rapidamente e como eles são inteligentes. Na hora que eu coloquei a marmita de Estrelinha no chão, os filhotes vieram como uma seta em direção a ela. Eu não queria que eles comessem dessa comida porque eles têm a ração apropriada para eles e Estrelinha tem que se alimentar bem para tomar conta dessa pequena matilha. Então eu tirei a caixa de comida do chão e a ergui até Estrelinha. E neste momento uma coisa especial aconteceu. Estrelinha, que sempre tem um apetite feroz, olhou para mim, olhou para a comida e me disse explicitamente: Deixe-os comer. Eu fiz como ela mandou, porque ela estava me dando uma instrução de mãe. Foi incrível porque foi muito claro. Ela controlou seu ímpeto de se alimentar em favor dos filhotes.

Quando eu fui embora, ele me seguiu por um tempo maior do que normalmente, detendo-se quando chegamos até uma rua mais movimentada. Ela olhou para mim, deu meia volta e tomou o rumo de casa para cuidar dos filhos. Como ela não comeu nada, à noite eu voltei para levar um jantar para ela e ela então comeu.

É possível duvidar da incrível capacidade de amor, de ética e responsabilidade dos animais? Claro, nem todas as espécies serão assim, mas generalizar que os animais somente agem por instinto, é dizer bobagem. Vide Estrelinha, a mãe do ano.

O vídeo abaixo mostra dois dos filhotes de Estrelinha para adoção:

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