23 de ago de 2010

Food Inc.: uma opinião


Semana passada finalmente fui ver Food Inc. o tão falado documentário que revela o que está errado com o ciclo de produção industrial de comida nos Estados Unidos e, por extensão, no mundo.

Dirigido e produzido por Robert Kenner, o filme intercala investigações em fazendas-fábricas de animais com depoimentos dos dois nomes mais prominentes do movimento gastronômico americano, Eric Schlosser, autor de Fast Food Nation, e Michael Pollan, que escreveu O Dilema do Onívero. Há também uma secção inteira sobre soja geneticamente modificada pela toda-poderosa e sinistra Monsanto.

E o que o espectador aprende? Que a comida barata a que o consumidor moderno se acostumou tem um preço alto, do ponto de vista ambiental, ético e humano. Que a dieta contemporânea está matando as pessoas devido ao excesso de calorias e proteína animal e que basicamente a indústria da comida é uma indústria que faz o que quer por dominar os gabinetes governamentais que a deveriam regular.

E não pensem que se trata de um problema americano. O caso da mudança do Código Florestal para se ajustar aos interesses do agronegócio no Brasil mostra que o problema é universal.

A falha de Food Inc. é que o filme apresenta uma solução simplista, como se apenas mudar para o produto orgânico fosse resolver o problema. Em suma, ser um ‘consumidor consciente’ é a panacéia para a situação caótica e perigosa em que nos encontramos.

Obviamente ser um consumidor consciente é bom, mas não basta. É preciso mudar radicalmente nossa relação com a natureza e abolir a idéia que o ser humano pode continuar vivendo como vive, como o centro do universo. Não basta apenas comprar um produto com alguma certificação verde. É preciso redimensionar nossa relação com o planeta.

Food Inc. escolhe heróis muito suspeitos para dar exemplo de como a coisa pode ser feita. Um deles é Gary Hirshberg da Stonyfield Farm que faz produtos laticínios ‘éticos’ e que foi comprada pela Nestlè. Um ex-hippie, que hoje acredita piamente na força do mercado e das corporações como a melhor saída, ele não convence. O melhor exemplo que ele consegue dar é a Wal-Mart comprando produtos verdes. Que bom que a rede o esteja fazendo, mas não seria o modelo de mega-lojas parte do problema? Não adianta apenas mudar o conteúdo, é preciso mudar o formato.

Um outro fazendeiro apresentado em uma luz positiva é um criador de animais esburrando com entusiasmo quase evangelista pelo tipo de trabalho que faz. Foi durante uma cena com ele que o filme me perdeu. Joel Salatin está destroçando uma galinha que provavelmente foi morta alguns minutos antes. Enquando ele canta elogios ao seu modo de trabalhar ‘ao ar livre, em um dia lindo de sol’, aves desesperadas são enfiadas em tudo de metal para ter seus pescoços cortados, tudo isso como pano de fundo para uma cena supostamente ‘positiva’. Que eu me lembre, Sarah Palin foi muito criticada por se deixar filmar em frente a um matadouro de perus no Alaska. O que esse produtor nunca menciona é a enorme quantidade de terra necessária para criar animais ‘ao ar livre’, terra essa que provavelmente fora habitada por animais livres antes de ser tomada como espaço para vacas, porcos e galinhas.

O problema é que Food Inc. opta por uma retórica maniqueista que isenta o público de responsabilidade, como se esse fosse a mera vítima de uma conspiração maquiavélica. A verdade é que todo mundo é conivente com essa máquina cruel que rechaça a natureza, animais domesticados e animais silvestres. A indústria, assim como a política, apenas refletem as populações a quem elas atendem.

O primeiro passo para essa mudança é reconhecer isso e adotar uma dieta vegana. Food Inc. em nenhum momento menciona a palavra veganismo, nem mesmo vegetarianismo, e os produtores que estão buscando realmente um jeito novo de produzir alimentos, como aqueles que praticam a agricultura vegânica. A questão dos direitos animais é central nessa transição para um mundo mais pacífico e ecologicamente viável e não pode ser ignorada.

Do ponto de vista vegano, Food Inc. não serve para nada. Do ponto de vista ambientalista, para muito pouco, embora seja um começo. E do ponto de vista da saúde, ele pinga uma gota no oceano.

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